domingo, 24 de janeiro de 2010

Asas no Céu

- Ele tá ali, dormindo.

- Dormindo? Será que não tá morto aquele bicho?

- Não, ele tá dormindo


Dia 24 de Janeiro de 2010. O auspicioso sol de fim de tarde deixa tudo claro, expõe a resposta dada pela dúvida do meu padrinho. Nós dois nos deparamos com um cadáver pobremente emplumado, os olhos pequenos, distantes e cinzentos; o corpo pacificamente imóvel em uma gaiola com detalhes curvos, muito parecida com outra que eu conheço.
Um pinto, não um pinto novo, um pinto adolescente, quase uma galinha. Um bichinho talvez incomum para se estimar, mas um bichinho alegremente estimado pelo meu sobrinho.Nestas situações, onde as obviedades naturais dos seres vivos aparecem, poderia se esperar uma atitude automática, tranquila e tão natural quanto o fato. Mas não somos nós que estamos observando pelo tubo de ensaio agora.

- Não conta nada pra ele, amor!

- A gente tem que contar Dari! A gente não pode esconder dele!

- Mas ele vai chorar, vai se sentir culpado.

- Sim, mas ele tem que ficar sabendo, mais tarde ele pode culpar a gente se não contarmos.

_ Ai, meu Deus!

A história, o tempo linear, as informações compiladas e publicadas, as que foram compiladas e queimadas, as que permaneceram desconhecidas; tudo isso que há a respeito do homem traria uma expectativa de que frente a fatores naturais e intrínsecos, em seu período individual de existência, ele com certeza agiria de forma espontânea, natural, sem dor. Mas isso é ver a coisa de fora, como uma máquina, como um texto técnico de caráter holístico, não aprofundado,sem grandes intenções, sem emoções. É extirpando o coração e colocando em seu lugar termos rebuscados,pesados, galantes, acompanhados de formas objetivas e cruas de se pensar, que o homem nega grande parte de sua essência, escolhendo a estrada da esquerda, ou da direita, ou vice-versa. O homem se esqueceu de pegar o caminho do meio.
As lágrimas rolam pela pele branca e suave do pequeno Pietro. Logo após a notícia ele agarra o pescoço do seu pai e solta gritinhos agudos de tristeza, altos o suficiente para atravessar o barulho e adentrar os domínios sagrados do silêncio. Nem todo mensageiro é odiado pelos deuses.O pequeno se afasta de tudo e todos, busca um canto onde pode chorar em paz, onde não há ninguém que possa perturbar, onde o silêncio e a calma dialogam, um lugar afastado do mundo, com portas espalhadas pelo mundo todo. Meu padrinho tenta conversar com ele, pede para que ele tenha calma e respire, pergunta se quer enterrar o seu pintinho. Ele diz que sim.
A cova minúscula (para um homem) engoliu a ave com uma paz inquietante. Pietro recortou a foto de um pinto muito parecido com o seu amiguinho, e escreveu, com a ajuda da mãe, um humilde epitáfio. A literatura dos epitáfios, se é que existe alguma voltada para estas manifestações artísticas, devido a situação extrema em que foram concebidas deveriam receber algum crédito, nunca recebeu uma obra tão profunda, sincera e crua. Um epitáfio único, um epitáfio que nunca vou esquecer. Lindo por sí só:


"O pinto está no céu. É do Pietro"

A tarde vira noite e depois de um tempo eu e Pietro já estamos brincando de gladiadores no colchão que vai me servir de cama na frente da TV. E esta tarde me ensinou o quanto o homem pode valer. Dando o valor certo, pra certos valores, o homem vale muito. Pensei também o quanto o mito do céu ainda é forte e verdadeiro para muitos de nós. Nenhuma ciência alcançou esse céu, nenhuma filosofia, ao menos nenhuma na qual alguém possa ter falado abertamente. Talvez haja uma forma de certificar isso, mas talvez seja forte demais para se poder falar, expressar. O que sei é que esse pobre pinto foi pro céu, e não há ciência que me prove o contrário. Talvez haja um céu pra cada um. Pinto ou gente.

4 comentários:

Thainá disse...

que fofo /chora
n___n

bizarro um pinto ser adolescente lol
adorei o post
bezo ;*

Dariane disse...

Adorei Jeh...perfeita descrição, emoção, td...
Parabéns

Lili Perin disse...

Booh.. me senti vivendo a morte do pinto.... (OBS: eu conhecia o pinto)

Cosmo Rafael Gonzatto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.