segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Louros ao Mais Vendido! (ele está precisando)




(...) o “não li e não gostei” mantem a liderança, seguido de “prefiro Machado de Assis e Dostoievsky” ( não entendo por que estes dois não estão na lista dos mais vendidos. Sem comentários…)
Paulo Coelho



O nobilíssimo escritor Paulo Coelho (parente do Presto da Caverna do Dragão) fez um post bastante original em seu blog: Por que odeio Paulo Coelho?. O ingênuo escritor teve a iniciativa depois de ter conversado com um amigo, que conversou com um amigo (suspeito, né?) que odiava Paulo Coelho, porém sem dar justificativas fixas ou argumentos convincentes para tamanho desgosto.

Até o dia de hoje o post conta com mais de 700 comentários a respeito de sua pessoa e suas obras. Muitas pessoas afirmam explosivamente que odeiam o bruxinho alto astral, mas o problema é que os argumentos são muito falhos: o tradicional não li e não gostei realmente impera.
Ora, leitores! Não há motivos para agir assim com o pobre homem se você não conhece a obra dele! Leia ao menos um livro depois parta para a ação! Afinal temos que contribuir, temos que ajudá-lo a responder a sua pergunta (por que não gostam de mim?).

Particularmente não ligo se as pessoas gostam ou não de Paulo Coelho, apenas acho que existem coisas infinitamente melhores que merecem atenção. O que me perturbou, verdadeiramente, foi o comentário de Paulo, que usei no início do post.
Gostaria muito de responder isso no blog dele, mas ele não admite palavrões.


(peço perdão)


Dostoiévsky e Machado de Assis não estão na lista dos mais vendidos, seu grande desgraçado, porque desde cedo, nas nossas humildes escolas, tivemos um contato macabro com a literatura. Tínhamos medo das linguagens rebuscadas, das histórias "indecentes", das épocas em que não vivemos. Em toda minha vida escolar pouquíssimas vezes fui bem apresentado a um livro e se não fossem essas pouquíssimas vezes não conheceria Dostoiévsky hoje.

Além disso as obras de Dostoiévsky e Machado de Assis são reproduzidas em larga escala em versões pocket. Noites Brancas pode ser adquirido por 8 reais, Esaú e Jacó ou Memórias Póstumas de Brás Cubas estão entre 10 e 13 reais. Eles não estão na lista dos mais vendidos porque a a porra da "elite leitora" não liga pra livros baratos e livros "ultrapassados", que são comprados com um mínimo de dinheiro e podem ser achados em sebos. A onda do momento são livros com capas cintilantes, com a foto do autor(a) na orelha fazendo uma pose arrojada e moderna, exibindo orgulhosamente a sua juventude e beleza, além de provar a todos as magníficas qualidades do Photoshop. Hoje o que importa é que o seu autor favorito esteja em capas de revistas, que suas obras estejam fazendo milhões com suas versões no cinema ou na TV, que ele seja amado na Europa e na Ásia. O fato dele ter mudado ou não a sua vida ou sua forma de pensar fica em segundo plano. É preciso que a máscara seja bela, do contrário nada é satisfatório.



Eu me pergunto o que acontecerá comigo quando eu tiver a audácia de publicar um livro (seu eu puder, lógico). Pode ser que as pessoas não gostem, pode ser que eu não goste! Mas...pensando bem, gostar é o mais importante? Até o onde o mero gostar faz sentido? Alguém achou Ensaio Sobre a Cegueira divertido e agradável? Alguém achou A Laranja Mecânica um livro engraçadinho? E essas obras são necessariamente ruins?



"Um escritor não escreve o que quer, escreve o que pode." Guillermo Arriaga

"Um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar." Charles Bukowski

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Café-da-manhã com gosto de Martini

Como este blog está a tempo sem comer alguma coisa vou fazer a mesma postagem que fiz em C&O.
Enjoy!




"Somos saudáveis apenas na medida em que nossas ideias são humanas"


Esse é o epitáfio do escritor fictício Kilgore Trout, um dos protagonistas de Café-da-manhã dos Campeões, ao lado de Dwayne Hoover um vendedor de carros fictício.

Não sei muito bem por onde posso começar a falar deste livro. Também creio na possibilidade de Kurt Vonnegut Jr. ter se sentido exatamente do mesmo jeito quando pretendia escreve-lo. Café-da-manhã dos Campeões, antes de qualquer definição, é um livro bastante engraçado e sério. Ser uma pessoa espirituosa seria um pré-requisito para rir dele. Saber parar de rir no momento certo seria importante também. Vonnegut, em um pequeno livro de um pouco mais de 300 páginas satiriza a política, o consumismo, o sucesso, a sociedade, a raça, o sexo e algumas outros coisas que os seres humanos costumam ostentar orgulhosamente. Ele aponta as facetas mais ridículas de todos os valores citados e faz isso sem parcimônia, sem moderar as palavras, ou melhor, ele escolhe as palavras exatas para que a sua piada não soe apenas suja e crua, mas compreensível, reflexiva e aceitável.

A narrativa diverte pela sua originalidade. Não é apenas uma narrativa fragmentada que perambula pelo tempo e espaço do romance, sua linguagem tem um caráter indiferente, como o de um texto analítico sobre a raça humana. Aliás, a obra é exatamente assim: voltada para um público de alienígenas que desconhecem a raça humana. No decorrer dessa novela alucinante você se depara com desenhos engraçados que explicam algumas idéias de Vonnegut e ajudam os alienígenas a compreender o mundo humano. Esses desenhos tem uma função fantástica no texto, fazendo com que você veja claramente as faces mais engraçadas e preocupantes da nossa adorável raça. Algumas luzes diretas do autor também aparecem no texto fazendo transparecer seu calcanhar de Aquíles: um caráter humanista, triste e artístico.

O livro pode ser encontrado em versão pocket na famosa coleção L&PM pocket. Você também pode vasculhar e-books por aí e procurá-lo em arquivo pdf.

Ele não é só recomendável, é essencial. Creio que o bordão que dá título a obra não ficou conhecido apenas pela famosa marca de cereais. Este livro é uma pérola da crítica e da contracultura (porque não?).

Bom café-da-manhã!