terça-feira, 22 de setembro de 2009

Depois de um dia ruim...


Dia de Cão

Hoje acordei pela manhã com a alegria e a calma de um agricultor. O céu estava limpo , o vento estava fresco e as árvores mais verdes do que o comum. A natureza me dava alguns momentos de coragem. Não demorou muito para que o barulho dos carros e das propagandas ambulantes despertassem, não demorou para que o ônibus lotasse. Cheguei ao trabalho com a mesma calma de antes e ouvi uma reunião da qual não contribui em nada. De certa forma eu previa um dia ruim mas não queria acreditar nisso, sabia que apesar da calma que eu ainda sustentava na minha sagrada cúpula interior de paciência, haveria sempre lá fora um lugar caótico repleto de fúria, pressa, gritaria, chantagem, tédio, fumaça, asfalto, vontade de dormir, vontade de gozar, berros em função conativa, alardes, pranto, enfim lá fora haveria o mundo. Isso tudo já não é mais tão difícil de suportar, mas cansa.

Durante o decorrer do dia você até tem alguns lampejos de imaginação, tenta falar as pessoas algumas idéias, alguns assuntos que podem interessar, mas ninguém ouve. Todos querem ficar entediados e se irritar em paz. Certamente há artimanhas para driblar um dia de cão: café, cigarros, chocolate , um pastel bem grande e gordo, sexo. Dentre esses o melhor é sexo, mas na maioria das vezes não é muito fácil de se conseguir e quando é certamente não se tira uma vantagem. O melhor num dia de cão é saber que você agüentou ele. Vejo as ruas movimentadas e percebo que há lugares que poderiam muito bem permanecerem congelados no tempo. Praças, bares, lojas velhas e até mesmo cantinhos singelos em algumas ruas. Imagino se por um dia a cidade inteira parasse por um momento pra esticar as pernas pela avenida, com todas as lojas fechadas, com gente rindo e olhando pras árvores. Certamente é uma imaginação boba, gerada pelo sentimento de querer ser bobo por alguns momentos talvez. No fundo é o que todos querem: poder rir o dia todo cantando uma musica tão simples e alegre que chega a ser idiota, beber 8 litros de refrigerantes com salgadinhos em um fliperama mesmo tendo 35 anos, deitar nos canteiros das avenidas e imaginar formatos nas nuvens, vestir uma camiseta do Misfits ou do Sex Pistols e convidar alguns amigos pra tocar violão na praça, paquerar mulheres de uma forma babaca o suficiente para fazê-las rir. Todos querem algo assim mas ninguém faz.

Duas coisas salvaram minha pele impedindo que eu me atirasse na frente de um carro ou algo do tipo. A primeira foi uma idéia muito legal: me imaginei dançando La Valse des Monstres no meio da cidade. Pouco a pouco as pessoas paravam para ver aquele lunático dançando e cantarolando (por não saber tocar acordeon) uma musica estranha. De repente surge um homem, trajado com roupas velhas e simples e uma boina preta carregando um acordeon. Ele reconhece a musica e começa a executá-la em seu maravilhoso instrumento. As pessoas vão aparecendo, formando um círculo ao redor da dupla de artistas admirando o som daquela valsa apoteótica. Elas começam a esquecer o compromisso urgente, o trabalho da faculdade, as roupas no varal, a janta para o marido, a viajem importante. Surge um novo musico carregando um violão. Encantado pela alegria daquele momento une-se aos novos heróis da humanidade e elabora magistralmente acordes doces e suaves que se aglutinam no ritmo da musica. As pessoas esquecem do chefe filho da puta, a faculdade cansativa, a casa perfeita que não precisa ser arrumada tão em breve, o marido grosso que espanca, a cidade grande e nojenta, os negócios, as propagandas, a televisão fútil, a sujeira das ruas, as angústias, as tristezas, as dores. As pessoas esquecem-se de si. Não demora muito para que uma bela jovem acompanhe o nobre dançarino e para que as pessoas em volta comecem a dançar e se beijar. A cidade é tomada pela alegria melancólica de uma valsa que não quer acabar. Mas eu sabia que essa visão ia evanescer.

O que realmente me salvou foi o seguinte: uma menininha havia perdido um casaco emprestado a ela. Desolada começou a chorar. O dançarino louco aqui foi ajudá-la perguntando o que havia acontecido, segurando em sua mão para que se acalmasse. Logo depois alguém acha a blusa que é entregue a menininha. Eu peço para que ela fique calma e pare de chorar. Ela faz que sim com a cabeça e me dá um abraço. Um abraço suave e profundo, um abraço que atinge os cantos mais tristes da alma como um raio de sol que por milagre ilumina uma caverna inteira. Um abraço doce, único, onde todas as coisas se justificam, se completam , se unem. Um abraço que é capaz de apagar o pior dia do mundo, a pior década, a pior vida. Um abraço perfeito.

Eu não tenho certeza se vou poder abraçar essa menininha sempre, não sei se vou vê-la mais. Não tenho a certeza de que vou ver ela crescendo e nem sei se desejo isso a alguma criança, mas eu sei que aquele abraço me salvou a vida. Agora é lutar contra o mundo, continuar firme.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O bom filho a casa torna.

10 de setembro de 2009.

Esse blog nasceu da mais pura e gordurosa essência do ócio. Apesar de isso ter acontecido no ano passado eu o considero obra de um pirralho preguiçoso coçador de saco. Bem, pode ser que eu ainda seja um pirralho, pode ser também que eu continue coçando muito o meu saco mas ao menos eu criei um pouquinho mais de vergonha na cara, um pouco mais de critério assim como diminui o meu nível extremamente irritante de afobação...apesar de continuar irritando as pessoas.

Pretendo reavivar esse espaço, assim como pretendo achar pessoas que me ajudem pelo menos dando uma olhada às vezes. Criar um blog, hoje em dia, não é mais algo superficial, principalmente para pessoas que se interessam pelo Meio Literário. É difícil falar sobre esse meio, levando-se em conta a quantidade assustadora de pessoas que utilizam a ciência da palavra para fins mesquinhos como inflar o ego para se sentir melhor. Mesmo falando isso creio que haverá pessoas que pensem da mesma forma sobre mim. Na verdade não pensarão completamente errado, muito do meu ego se encontrará aqui mas o objetivo principal não é inflá-lo e sim conectá-lo a vários outros. Ele é muito carente e babacão, esse meu ego.

Finalizando as logorreias acima quero justificar que quem escreve aqui não é um literato. Mas este blog, como ser vivo, será... e muito.



Profundo Conhecedor da Essência Humana


Hoje já não vivo na casinha da minha mãe. Hoje sou mendigo. Agora eu vejo as pessoas passando ocupadas com seus celulares, pastas, folhas, seus lanches rápidos. Isso de comer comida na rua é besteira. Eu sei disso, eu como na rua. Mas tem gente que se entope dessa porcarias e para no hospital. Eu sei disso, eu às vezes leio nessas revistas que uso pra forrar minha bota velha. O certo, que minha mãe me encinou é comer bastante e bem, numa mesa bem arrumada. Comer é sagrado, mas eu como na rua...acho que sou um pecador. Eu me arrpendo de não ter estudado mais, mal aprendi a ler. Tem nome que eu leio e não sei o que é. Eu me pergunto é como tem gente que vai pra essas universidade aí e ficam pensando no que vão ser ainda, ficam reclamando. É meio irritante isso.

Desde que minha mãe morreu eu meio que me anojei mais ainda de gente. Gente fede. Eu sei bem disso. Minha mãe não era gente, era anjo. Ela fazia tudo pra mim, eu não sabia me virar sem ela. Quando ela morreu não tinha mais ninguém, quer dizer, tinha meus irmão né, mas meus irmão além de gente eram traficante. Se eu ficasse junto perigava de eu morrer na mão daqueles loucos. Eu tomo minhas cachaça, fumo uma marofa de vez em quando mas tenho medo daquelas coisa cheia de gasolina. É coisa de gente mesmo. Tem doutorzão aí, que faz muito bafo de gente fina e preocupada com as outras gentes. Falam por todo canto que droga não presta, que é preciso ajudar os viciado, mas eles sabem que não vivem sem um whisky importado, um pozinho, até mesmo a marofa que como eles dizem "é coisa de pobre". Gente é muito mentirosa.

Eu sou gente mas eu pelo menos me arrependo disso. Eu podia ter me esforçado pra virar menos gente. Mas dizem uns amigos de rua meus que gente nunca deixa de ser gente, que gente é uma confusão mesmo, não sabem o que tão fazendo, se tá certo ou errado, se é feio ou se é bonito. Ficam toda hora se desdizendo, e que o bonito da gente é isso mesmo, essa confusão toda, esse mar de bagunça. Se for ver até que não é errado. Mas gente fede demais...não vejo a hora de deixar de ser gente.
Quando eu falo isso pros meus amigo eles ficam pirado. Falam que eu sou metido, mas é errado querer ser diferente? Eu queria tar no céu com minha mãe também, não queria tar aqui todo sujo de barro e bosta, com metade dos dentes faltando e com a gengiva espedaçada. Como é que eu vou ir pro céu se eu sou feio que nem um bixo? Eu achoq ue de tão feio e fedido eu deixei de se gente pra ser uma coisa pior. Mas foi tudo culpa de gente.

Eu não tinha nem 5 ano, tava brincando do lado de fora. Eu lembro bem disso, não tem como esquecer. Eu tava brincando e caí num poço negro. Eu tentei saí mas eu me atolava mais naquela massa cheia de merda e mijo de gente. Eu fui atolando cada vez mais. Chorei. E no choro acabei engolindo muita água e mijo, e merda também. Fiquei acho que uns 5 minuto naquela nojeira. E aos poucos eu não via mais nada, mas vi muita coisa de dentro da cabeça. Vi gente morrendo, vi gente brigando, vi gente pondo comida fora, vi gente se matando. Vi gente falando mal de coisas que não podiam falar mal, falavam mal da origem das pessoas, falavam mal do coração, falavam mal de gente velha, falavam mal de coisa de sentimento sabe? coisa tipo miúda e bonita que sai do coração. Mas falavam bem de ferro, de ouro, falavam bem de dinheiro e de prédio grande. E matavam por tudo isso e cagavam em cima de tudo isso e vendiam e compravam e sangravam. Parece que a merda que eu engoli trouxe muito segredo do homem. Acho que li em algum jornal velho que isso é chamado de essência. Mas a essência que vendem na loja é cheirosa, bonita, não é fedida e gosmenta.

Meu tio me tirou do poço negro antes que eu morrese. Minha barriga já tava do tamanho de uma abóbora e eu tava coberto de imundiçe. Me levaram pro hospital e me levaram. Depoois disso não fiquei com medo de água ou de fazer cocô, mas fiquei com medo de gente. No começo eu não sabia porquê. Agora eu sei.

Ainda to na rua e acho que vou ficar aqui pra sempre. É pena, queria ser anjo, mas sou gente. Mas não gente que nem eles...posso ser pior, mas não sou que nem eles.




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Foi um conto a jato. X)

Eu ou vi uma história de um menino que caiu num poço negro, lá perto de onde eu trabalho e resolvi escrever algo. Talvez eu aumente a história, talvez não. Mas pelo menos escrevi, viajei bastante, gostei.

jean (wally!).